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INSÓLITA ARIDEZ




U2. The unforgettable fire. Island, 1984.

Em 1984, o mundo vivia sob a ameaça da destruição nuclear, sustentada pela disputa entre EUA e URSS. Vivíamos a Era Reagan.
Nenhuma banda de rock soube traduzir, em suas músicas, esse tênue limite entre cena política e social como U2. The unforgettable fire, o quarto disco da banda irlandesa, tinha seu título surrupiado de uma exposição de pinturas dos sobreviventes de Hiroshima. Era o fogo inesquecível da bomba atômica queimando corpos e sonhos, em fins da Segunda Guerra Mundial.
Mas o disco não se limitava a isso. A temática central de suas canções era o fato de que, por mais esperança que tenhamos, somos áridos e sem vida, e vivemos, de uma forma ou outra esperando pela morte. Assim é a vida. Não há o que fazer, apenas sonhar.
Segundo as palavras de Bono, “o mundo se move pelos escombros de um sonho de paisagem”, e segue em sua retórica explicitando que “os muros da cidade foram todos colocados abaixo [...] vejo rostos enrugados tal qual campos que não imporam resistência” (A sort of homecoming).
Produzido por Brian Eno, ex-integrante do Roxy Music, The unforgettable fire trazia o grande hit do U2 até então: Pride (in the name of love), uma música que, segundo a banda teria Ronald Reagan como temática, mas que acabou se transformando em homenagem ao líder Martin Luther King, ativista político, assassinado em abril de 1968. King aparece também como temática em MLK, onde ouvimos Bono cantar: “Durma esta noite, e que seus sonhos se tornem realidade”.
The unforgettable fire é um libelo pacifista, no qual a banda procura utilizar de imagens próprias da época, com o objetivo de mostrar a outra face da moeda. Utilizando do cenário político pessimista, pretende mostrar alguma esperança: “[...] as luzes dessa cidade brilham como prata e ouro, [...] e seus olhos são pretos como carvão. [...] Venha para me levar pra casa, mais uma vez” (The unforgettable fire). Em Wire: “Inocente, e, em determinado sentido, sou culpado pelo crime que tenho em mãos”.
A gravação de Elvis Presley & America foi de um vanguardismo assustador. O produtor deixou Bono sozinho no estúdio e fez com que ele criasse, ali mesmo, a letra da música sem o acompanhamento da banda. Como um poema dadaísta, Bono Vox criou uma narrativa digna de Tristan Tzara. Só depois foram adicionados os instrumentos à gravação.

O próprio movimento dadaísta, criado por artistas contrários à Primeira Guerra Mundial, se encaixa perfeitamente à proposta pacifista e libertária de The unforgettable fire. Uma grande obra, e por isso um disco que você tem que ouvir antes de morrer.


Ouça The unforgettable fire em https://youtu.be/Ug33xMC7duk

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