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REAGAN, GUERRA FRIA E VIETNÃ.
BRUCE SPRINGSTEEN. Born in USA. CBS, 1984.Quando o jornalista Jon Landau escreveu “eu vi o futuro do rock, e ele se chama Bruce Springsteen”, na década de 1970, poucos acreditaram. O fato é que Jon Landau acabou tornando-se amigo, produtor e empresário de The Boss. Alguns anos após a famosa resenha, Landau e Springsteen estariam produzindo aquele que seria lembrado como o álbum definitivo: Born in USA. Naquele tempo o mundo vivia o clima da guerra fria, com a polarização do poder mundial nas mãos dos Estados Unidos e União Soviética. Na época do lançamento do disco, Ronald Reagan, presidente norte-americano de então, tentou transformar o trabalho de Springsteen em um libelo pela democracia, nitidamente pró-States. O marketing funcionou, e o que pensamos, inicialmente, sobre Born in USA é que o disco não passa de discurso patriótico exasperado. Roberto Carlos, contaminado por esse sentimento, lançou pouco tempo depois, uma versão brazuca, chamada Verde amare…
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BYE BYE, BRASIL.CAETANO Veloso. Caetano Veloso. Philips, 1971.


Em dezembro de 1968, o governo militar lançou o Ato Institucional n. 5, dando poderes excepcionais ao presidente da República, e limitando as liberdades individuais.[1] No mesmo mês Caetano Veloso e Gilberto Gil eram presos pelos militares, e posteriormente seguiriam para o exílio, iriam se refugiar em Londres.[2] Gilberto Gil logo se enturmou com os músicos locais e com a comunidade jamaicana residente na capital inglesa. Caetano Veloso ficava cada vez mais introspectivo e soturno. Não fosse pela casa sempre cheia de amigos, brasileiros ou não, que iam ali conversar e colocar Caetano em dia com o que se passava no Brasil, o nosso baiano poderia ter tido um fim diferente. Tudo mudou quando Caetano foi procurado por um representante da indústria fonográfica em Londres, em sua casa na rua Redesdale. Tratava-se de Ralph Mace, que segundo Caetano, pediu que tocassem algo. Para surpresa de todos Mace adorou o que ouviu. Pediu que C…
OVERDOSE DE ROCKGUNS 'N ROSES. Use your illusion I. Geffen, 1991.                                                       GUNS 'N ROSES. Use your illusion II. Geffen, 1991.













O ano de 1991 foi um dos mais produtivos para o rock and roll. Red Hot Chili Peppers lançaram Blodsugarsexmagik (já debatido no blog), U2 lançou o ótimo Achtung baby!, o grunge surgiu com os badalados trabalhos do Nirvana (Nevermind) e Pearl Jam (Ten) e o Guns ‘n Roses lançou seu mais aclamado e ambicioso trabalho: dois álbuns duplos, lançados simultaneamente, intitulados Use your illusion.

O Guns já vinha de dois discos de grande repercussão: Appetite for destruction (1987) e Lies (1988). O primeiro mostrou ao mundo a que veio a banda, um proto-hard rock, recheado de solos incríveis de seu exímio guitarrista, Slash. O segundo arriscou por um caminho totalmente diferente, mostrando canções em ambiente acústico que estouraram nas rádios (como Patience, por exemplo).
Os fãs da banda já estavam ansiosos por um novo…
TUDO NOVO DE NOVO
JORGE BEN. Samba esquema novo. Philips, 1963.
Lançado em 1963, Samba esquema novo quebrou o paradigma musical existente, tanto quanto Chega de saudade havia feito em 1959. Jorge Ben surgia, dessa forma, como o novo vetor da música jovem brasileira e, mais importante, nem era bossa nova, nem era música popular, nem era Jovem Guarda. Era tudo ao mesmo tempo agora. Na contra capa do LP pode-se ler que Jorge Bem “É fenômeno mesmo, pois desde há muito não aparecia ninguém como ele no meio artístico [...]”. Enquanto a turma de Elis Regina se estranhava com os seguidores de Tom Jobim e estes torciam o nariz pra galera de Roberto Carlos, Jorge Ben aglutinava público de todos os segmentos. Recheado de clássicos (Mas, que nada; Chove, chuva; Balança pema, e muitos outros), Samba esquema novo é considerado, hoje, um dos maiores lançamentos de toda a música brasileira. Por ter sido um sucesso imediato de crítica e público, além de contar com lindas melodias e vocais harmoniosos, Samba…
INSÓLITA ARIDEZ


U2. The unforgettable fire. Island, 1984.
Em 1984, o mundo vivia sob a ameaça da destruição nuclear, sustentada pela disputa entre EUA e URSS. Vivíamos a Era Reagan. Nenhuma banda de rock soube traduzir, em suas músicas, esse tênue limite entre cena política e social como U2. The unforgettable fire, o quarto disco da banda irlandesa, tinha seu título surrupiado de uma exposição de pinturas dos sobreviventes de Hiroshima. Era o fogo inesquecível da bomba atômica queimando corpos e sonhos, em fins da Segunda Guerra Mundial. Mas o disco não se limitava a isso. A temática central de suas canções era o fato de que, por mais esperança que tenhamos, somos áridos e sem vida, e vivemos, de uma forma ou outra esperando pela morte. Assim é a vida. Não há o que fazer, apenas sonhar. Segundo as palavras de Bono, “o mundo se move pelos escombros de um sonho de paisagem”, e segue em sua retórica explicitando que “os muros da cidade foram todos colocados abaixo [...] vejo rostos enruga…
SANTUÁRIO DO ROCK
THE CULT. Love. Beggars, 1985.
Em 1985, a banda inglesa The Cult, lançou seu segundo álbum. Recheado de referências e influências do Led Zeppelin, Love veio ao mundo, ressuscitando a psicodelia de Hendrix e as guitarras de Page, acompanhadas pelo vocal a la Plant do jovem vocalista Ian Astbury.
Na época, a banda foi saudada como a “mais vital das ilhas britânicas” (ESCOBAR, 1987, p. 34) e o álbum Love foi chamado de “uma aventura surpreendente” (BORBA JUNIOR, 1986, p. 18).
O fato é que em suas dez faixas, a banda trata de assuntos ligados à natureza (influência da atração de Astibury pela cultura ameríndia) como em Brother Wolf sister moon, drogas em Nirvana e espiritualidade em Hollow man.
O ponto alto, sem dúvida, é a faixa She sells sanctuary (vale a pena ver o clip oficial do single, presente na nossa playlist), onde o vocal de Astibury duela com os riffs da guitarra de Billy Duff, resultando em uma música de vibe avassaladora. Puro blues metaleiro dos anos 1980. A ba…
SOBRE A BREVIDADE DA VIDAPEARL JAM. No code. Epic, 1996.

O Pearl Jam, junto com Nirvana e Alice in Chains, foi um dos maiores expoentes da cena grunge de Seattle. Em 1991 lançaram Ten, um disco cheio de vibe, ritmos e guitarras estridentes. Em 1996, já devidamente lançado ao panteão dos grandes nomes do rock, a banda lança o enigmático No code, um petardo recheado de dúvidas existencialistas e crise de identidade, que faria Sêneca se sentir como membro da banda. Acostumados ao som arrasador dos discos anteriores, o público estranhou esse filhote no ninho. Entretanto, com o passar do tempo, No code se mostrou a verdadeira obra prima do Pearl Jam. No lugar das guitarras cortantes, o álbum abre com Sometimes, onde o sussurro de Eddie Vedder reverbera aos inauditos: “Sou apenas um livro entre tantos outros na estante”. Claro que, acostumados aos solos flamejantes de Mike MacCready, a banda não deixaria passar batido, e a segunda faixa Hail hail surge sem aviso, quase causando uma síncope nos …