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SOBRE A BREVIDADE DA VIDA

PEARL JAM. No code. Epic, 1996.


O Pearl Jam, junto com Nirvana e Alice in Chains, foi um dos maiores expoentes da cena grunge de Seattle. Em 1991 lançaram Ten, um disco cheio de vibe, ritmos e guitarras estridentes.
Em 1996, já devidamente lançado ao panteão dos grandes nomes do rock, a banda lança o enigmático No code, um petardo recheado de dúvidas existencialistas e crise de identidade, que faria Sêneca se sentir como membro da banda.
Acostumados ao som arrasador dos discos anteriores, o público estranhou esse filhote no ninho. Entretanto, com o passar do tempo, No code se mostrou a verdadeira obra prima do Pearl Jam.
No lugar das guitarras cortantes, o álbum abre com Sometimes, onde o sussurro de Eddie Vedder reverbera aos inauditos: “Sou apenas um livro entre tantos outros na estante”.
Claro que, acostumados aos solos flamejantes de Mike MacCready, a banda não deixaria passar batido, e a segunda faixa Hail hail surge sem aviso, quase causando uma síncope nos desavisados.
Logo após nos defrontamos com a dúvida humana de ser ou não ser em Who you are, nos confrontando nossos medos interiores, nossas dúvidas e sobre a brevidade da vida humana: “Me leve para passear antes que partamos”.
In my tree fala sobre abusos físicos na infância e o esconderijo que Vedder utilizava, a árvore do quintal, para se esconder do padrasto: “sem chaves inglesas em minha cabeça”.
O disco segue essa retórica e atinge seu ponto máximo em Present tense, teorizando que “Você pode passar seu tempo sozinho, digerindo o passado, ou pode entender que só você pode se perdoar, pois faz mais sentido viver no presente”.
Por ser um disco repleto de músicas feitas não só para serem ouvidas, como também pensadas, No code, do Pearl Jam, é um disco para se ouvir antes de morrer.

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